Skip to content

stephen fictícia, maple e bulimia

1 de abril de 2009

” (…)”Se eu não tivesse ficado gostando tanto de vocês duas”, escrevia Lady Massey, “esta minha decisão me seria muito menos dolorosa. Na verdade, o fato me deixou de todo atônita, e devo levar em apreço a minha situação aqui no condado. É que, cumpre notar, o condado inteiro me considera uma espécie de guia. E, além disso, devo considerar que existe minha filha. Os rumores que chegaram a mim a propósito de você e Mary – certas coisas em cujo âmago não desejo entrar – me forçam categoricamente a romper nossa amizade e dizer que lhes peçam que não venham aqui mais no Natal. É evidente que uma mulher na minha situação, para quem se voltam todos os olhos, se vê na contingência de ser muito cautelosa. Isso tudo me é sobremodo triste e constrangedor. Se eu não tivesse gostado tanto de vocês duas… mas você sabe quanto fiquei querendo bem a Mary . . .” E assim por diante. Uma espécie de lamentação cheia de jatos de importância combinados com acessos de dó pessoal.

_______________________________

A medida que Stephen lia tal carta, ficava com os lábios cada vez mais lívidos. E Mary saltou:

-Que carta é essa que você está lendo?

-É de Lady Massey. Trata-se de… É a respeito de… – E a voz lhe fugiu.

-Mostre – insistiu Mary.

Stephen meneou a cabeça.

-Prefiro não mostrar.

Então Mary perguntou:

-É a propósito da nossa visita?

Stephen anuiu com um gesto de cabeça.

-Não iremos mais passar o Natal em Branscombe. Querida, não tem importância. Não fique com essa cara…

-Mas quero saber por que é que não vamos a Branscombe – E Mary avançou e tirou a carta.

Leu-a até a última palavra, depois se sentou abruptadamente e se pôs a chorar. Chorava com soluços longos, dolorosos, de criança que alguém feriu sem razão nem pena.

-Oh!… E eu que pensava que elas gostavam de nós… – soluçava ela. -Cheguei a pensar que talvez… elas compreendessem, Stephen!…

(…)”

(O Poço da Solidão – Marguerite Radclyffe Hall)

Sim. Essa Stephen do trecho acima é a Stephen fictícia. Stephen Mary Olivia Gertrude Gordon do livro O Poço da Solidão, escrito em 1928 por Hall. Houve uma identificação para a escolha do nome. Eu, que escrevo, sou a Stephen verídica, ainda que diferente da descrita por Hall, sou contemporânea, ainda adolescente, com hábitos burgueses. Não sou alta, nem atlética, como a Stephen de Hall. Não fumo incessantemente, e nem uso ternos masculinos. Não choco a sociedade.

Por vezes não queria me identificar com ela. Queria ser completamente diferente dela. Queria poder escapar das angústias que ela vive, e, ao ler esse livro, até sorri pensando: “A sociedade está diferente, não vou sofrer assim.” LEDO ENGANO. Ingênua, ingênua Stephen. Por que caralhos seria diferente? Por que o mundo sorriria pra mim? O mundo não sorri pra ninguém.

Volto pra casa. Passos apressados, ouvindo Maple, trombando mentalmente com todos os indíviduos em meu caminho.

Os pensamentos rodam rapidamente pela minha cabeça. A culpa não é dos outros. Cada pessoa tem suas limitações, foi o que eu disse pro Fígaro, amarrando meu tênis com a voz travada. A culpa não é de ninguém, exceto minha. Eu, que sou detestavelmente ingênua. E por um momento eu queria nunca ter nascido. Queria poder negar tudo que já senti por todas elas, os olhos delas, os cachos da traidora em meus dedos, sua boca na minha, o meu coração pulsando, negar o que sinto quando ouço a voz da linda dona dos olhos verdes ao telefone, negar a paixão que estou deixando crescer, negar como é bom segurar sua mão. Karen Arnold me disse ainda essa semana que eu tenho escolha. Posso escolher negar todo esse sentimento e viver uma vida medíocre, uma vida que não é minha. Não posso viver uma vida que não é minha!

O mundo brada a plenos pulmões pra sermos nós mesmos! Estou sendo, porra! Depois o mundo aponta seus indicadores esqueléticos e grita:

-SUJA! Errada! Indecente! Isso me incomoda! PRA LONGE DE MIM!

Assim você me deixa confusa, mundo… Eu queria só que tudo estivesse em harmonia. Por que não podemos todos ser felizes? Por que eu tenho que te incomodar tanto?

Ah, Stephen, esquece essa sua UTOPIA DE MERDA, sua IDIOTA. O mundo SEMPRE vai apontar o dedo pra criticar. Nunca poderemos ser nós mesmos.

Sempre seremos gordos demais, feios demais, burros demais, duas mulheres  nunca vão poder se amar sem serem criticadas, uma aluna nunca vai poder amar um professor sem ser criticada, um carpinteiro nunca vai poder sonhar ser astronauta sem que riam dele.

Pra quê sonhar? Pra quê amar? Pra quê toda essa merda?!

Queria poder enfiar a cabeça num buraco e ter meus olhos devorados por larvas. Queria sumir desse mundo.

Diga que sou dramática. Diga pra ver como vou te olhar de volta. Estou puta. Puta comigo mesma. Puta com as pessoas ao meu redor. Nem vou revisar esse texto antes de postar.

Infelizmente não tenho coragem pra beber água sanitária e sei que se eu fizer isso agora, vou me arrepender mais tarde. Então só me resta viver. E se me resta viver, vou fazê-lo com a dignidade ser eu mesma pra ter pelo menos esse argumento a meu favor. Nada de deixar que meus sonhos se tornem lembranças de uma dona de casa passiva e submissa.

E, mundo, convenções: VÃO SE FUDER.

PS: Obrigada, Bulimia

“500 anos de Brasil

E o que é que mudou?

Quantos anos você tem?

E o que você mudou?

Se julgar incapaz foi o maior erro que cometeu,

o indivíduo racional é na verdade um deus.

Pensar é sua arma contra toda essa opressão,

só depende de você fazer a revolução”

Com raiva e atirando pra todos os lados MESMO.

Anúncios
One Comment leave one →
  1. karenarnold permalink*
    1 de abril de 2009 11:23 PM

    o mundo está cheio de pessoas inferiores, você está rodeada delas, assim como de pessoas que a amam e a aceitam como você é e, principalmente, te amam como você é, PELO que você é. eu te amo, não esqueça disso. e não deixe o que vem de fora afetar o que tá tão lindo por dentro. o mundo é podre e o mundo fede, mas nem tudo é o que parece. revolucinar a sociedade, revolucionar conceitos, revolucionar a felicidade dos outros também? revolucionar tudo ou o que é abusivo? não há nada de errado com você, tampouco com as limitações dos outros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: