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quem é você?

3 de fevereiro de 2010

Olhou para o lado, o direito. Esqueceu-se de respirar fundo, se lembrou de qualquer coisa feliz, “aquele dia em que acordei contente sem explicação”. Não fez nada, simplesmente não o fez, toda uma cerimônia por nada.
O leitor se sentia incomodado, era um qualquer com muita descrição, pouco conteúdo, lhe faltava a tal da intensidade, aquela emoção, qualquer coisa forte que o faça se lembrar disso daqui três dias.
Leu mais um pouco, nada além de desculpas esfarrapadas, “quem é você?”, toda aquela coisa clássica sem sentido, o beijo mais lindo do mundo, era lindo! Talvez a coisa mais bem feita que alguém poderia fazer, era belo de se assistir, mas o rapaz não amava a garota, eram atores.
O pão crescia na casa de Dona Olívia, ela nem se quer sonhava com a possibilidade de que o leitor soubesse dela, seu marido morreu faz alguns dias, ela não está feliz, mas também não parece triste, ela fez pão. “Não sei, idosos gostam de ser lembrados”, ela não saberá disso, o leitor não fala com ela, quem dirá o escritor.
Um esquilo topou com um filhote de cachorro, o filhotinho lhe lambeu a cara, quis brincar. A dona o colocou para dentro de casa, ele é um filhote, ele é amado, “mas o esquilo não é amado também?”: Não, o cachorrinho lhe lambeu cara pois era um filhote, queria brincar, só.
O leitor estava louco: “ele quer chegar em algum lugar com isso?”.
Um rapaz no banheiro, uma dor de barriga lascada, daquelas em que o cu arde, daquelas em que se confere o pedaço da casca do tomate, e o milho, sempre tem o milho! Estava na casa da namorada, “puta merda!”, não podia fazer barulho, mirou no canto da porcelada, aquilo escorria marrom amarelado, “que nojo”, deu certo! A dor sumiu. Pegou o papel higiênico, “camada tripla e aroma floral?”, começou a limpar, olhou para o papel para calcular quantas limpadas mais, “o cu ardia”, quando seus olhos miraram para lá, o papel furado, o dedo sujo de merda. Ele se esqueceu de tudo o que existia no mundo, se contentava em odiar apenas aquele momento, “caralho, nada parece pior”.
Um homem passeava em qualquer lugar, ele não conhece o leitor, ele não conhece o escritor, será que ele conhece alguma Dona Olívia? Será que ele já viu um esquilo? Ele já sujou o dedo de merda, no momento ele não se lembra disso, ele está lá! Está andando, ele não é ninguém, mas foi interceptado:

-Ei! Quem é você?
-Sou o ninguém, aquele que você que está lendo não conhece.
-E você é feliz sendo ninguém?
-Acho que sou sim, é que você não me conhece, por isso não sabe, mas sou feliz.
-Você não me conhece, não sabe pelo problema que estou passando, você não conhece o leitor nem o escritor, você não tem noção do que sofre a Dona Olívia, meu filhote de cachorro morreu ontem, eu tenho alergia a esquilo, sujo o dedo na merda todos os dias. Agora me diz: Afinal, quem é você para ser feliz?

Um homem que passeava em qualquer lugar, ele não conhecia o leitor, ele não conhecia o escritor, será que ele conheceu a Dona Olívia? Será que ele já viu um esquilo? Será que ele foi bom marido? Será que ele era casado? Será que ele tinha filhos? Ele morreu, ele não era ninguém, você não o conheceu, não faz diferença.

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One Comment leave one →
  1. karenarnold permalink*
    5 de fevereiro de 2010 8:51 PM

    é, não faz.

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